Volume não é presença | o guia do Google sobre IA
- Mariana Oliveira

- 10 de jul.
- 7 min de leitura
Atualizado: 13 de jul.
Alguns meses atrás o Google publicou um novo guia oficial sobre como sites devem se preparar para as funcionalidades de IA na Pesquisa. O documento se chama "Otimizando seu site para recursos de IA generativa na Pesquisa do Google" e está hospedado no Google Search Central, ao lado do Guia de SEO para Iniciantes, dentro dos fundamentos, sem categoria separada para IA.
O mercado de marketing recebeu o lançamento da forma usual: thread no LinkedIn explicando "o que o guia realmente diz", curso novo no ar em 72 horas, guru declarando que "tudo mudou". Só que o guia diz o oposto. Ele é, em boa parte, uma confirmação de que os fundamentos não mudaram.
Quem apostou nos últimos dois anos que a IA generativa exigia um novo conjunto de regras, siglas e táticas publicou bastante conteúdo com base em uma premissa que o novo guia do Google coloca em xeque, ao menos dentro do ecossistema da pesquisa Google.

O que o Google disse de fato
O guia começa com uma pergunta direta: "O SEO ainda é relevante para a pesquisa com IA generativa?" A resposta, também direta: sim. Os recursos de IA generativa do Google "estão enraizados nos sistemas tradicionais de classificação e qualidade da Pesquisa." Entre outras técnicas, os recursos generativos do Google usam RAG e query fan-out para recuperar páginas relevantes do índice da Pesquisa. Para ser elegível, uma página precisa estar indexada e apta a aparecer na Pesquisa com um snippet. Isso não significa, porém, que ela precise aparecer entre os primeiros resultados da consulta original.
Sobre AEO ("answer engine optimization") e GEO ("generative engine optimization"), o Google é explícito no próprio documento: da perspectiva do Google Search, otimizar para pesquisa com IA generativa é otimizar para a experiência de pesquisa em geral, portanto ainda é SEO. Essa conclusão vale para o ecossistema do Google Search. Ela não descreve necessariamente como ChatGPT, Perplexity ou outros mecanismos recuperam e selecionam suas fontes.
Além de confirmar os fundamentos, o guia traz uma distinção que afeta diretamente como qualquer empresa deve pensar sobre o que publica. O Google diferencia conteúdo commodity de conteúdo não-commodity com um exemplo concreto: "7 dicas para compradores de imóveis pela primeira vez" é conteúdo commodity. "Por que dispensei a inspeção e economizei dinheiro: o que encontrei na tubulação de esgoto" é conteúdo não-commodity. A diferença está em se o conteúdo traz algo que só aquela fonte poderia ter dito: uma avaliação em primeira mão, uma perspectiva baseada em experiência real, algo que um modelo de IA não consegue gerar sozinho porque depende de quem viveu aquilo.
Essa distinção existe no SEO desde sempre. O que é novo é o contexto em que ela aparece: em um cenário em que muitas empresas passaram dois anos usando IA para produzir mais conteúdo, mais rápido.
O problema que o volume criou

Em novembro de 2024, artigos classificados como predominantemente gerados por IA superaram os classificados como humanos em uma amostra de 43 mil artigos em inglês do Common Crawl, segundo pesquisa da Graphite. O percentual chegou a aproximadamente metade da amostra e, desde então, permaneceu relativamente estável. Nos textos publicados antes do ChatGPT, o detector classificou 4,2% como IA, número tratado pelos autores como uma estimativa da taxa de falso positivo.
A Graphite levanta a hipótese de que a estabilização ocorreu porque profissionais perceberam que artigos gerados por IA não performavam bem em busca. A nossa leitura é que o volume encontrou um teto: sem perspectiva, produzir mais não necessariamente produz mais resultado.
Entre os profissionais de marketing que usam IA para criação de conteúdo, 87% relatam melhora de produtividade, mas apenas 39% relatam melhora na performance do conteúdo, segundo pesquisa do Content Marketing Institute com 1.015 profissionais de marketing conduzida entre junho e agosto de 2025. A melhora percebida na produtividade das equipe que adotaram o uso de IA foi muito maior do que a melhora percebida na performance do conteúdo.
O problema do conteúdo gerado por IA não é necessariamente a correção técnica, mas a falta de distinção. Quando a ferramenta apenas sintetiza o que já existe, o resultado tende ao genérico: não carrega a perspectiva de quem testou uma abordagem, perdeu um contrato, ganhou um cliente ou acompanhou um mercado de dentro. O risco, portanto, é a homogeneidade: conteúdos formalmente corretos, mas pouco reconhecíveis.
Segundo o 2025 Buyer Experience Report, da 6sense, 94% dos compradores B2B pesquisados usaram modelos de linguagem durante o processo de compra. O mesmo estudo, porém, indica que essas ferramentas ainda não reduziram de forma relevante as interações com fornecedores nem a dependência de conteúdos e especialistas externos. A IA já participa da pesquisa, mas ainda não substituiu a validação.
O que esses compradores encontram quando pesquisam sobre a sua empresa nesses sistemas? Se o conteúdo publicado é indistinguível do restante do setor, a empresa oferece menos sinais próprios para ser descrita, comparada e citada. O resultado pode ser uma resposta genérica ou a ausência da marca entre as fontes consideradas.
Por que o ponto de vista é raro

O Google descreve conteúdo não-commodity como aquele que "fornece perspectivas únicas de especialistas ou de pessoas experientes que vão além do conhecimento comum e do ordinário."
A dificuldade não vem da falta de diferenciação real, mas de um problema de acesso interno. Os diferenciais estão nas pessoas, nos casos, nas escolhas que a empresa fez e que custaram algo: o vendedor que perdeu um contrato por honestidade, o engenheiro que recusou uma implementação porque sabia que ia falhar, o diretor que descobriu que o problema do cliente era diferente do que o cliente achava. Esse material existe. Só que ele raramente chega aos briefings de conteúdo, às pautas mensais, às reuniões de alinhamento com a agência.
O que chega aos briefings, em geral, é tema. "Escrever sobre tendências de mercado", "fazer um artigo sobre integração de sistemas", "publicar algo sobre atendimento." Tema sem perspectiva é o que alimenta o conteúdo commodity, e é exatamente o que a IA consegue produzir sem nenhuma informação adicional da empresa.
Conteúdo com perspectiva exige que alguém da empresa responda: "Por que só nós poderíamos dizer isso dessa forma?" Se não há resposta, tem assunto, mas ainda não tem ponto de vista.
O que acontece com quem só tem volume
Empresas que construíram volume sem perspectiva acumularam conteúdo commodity num momento em que o Google reforça que quantidade, por si só, não torna um site mais relevante ou de maior qualidade. A assimetria se aprofunda a cada peça que repete o que já existe sem acrescentar experiência, evidência ou interpretação própria.
Segundo o 2025 Buyer Experience Report, da 6sense, o primeiro contato com fornecedores ocorreu, em média, quando 61% da jornada já havia sido percorrida, mais cedo do que nos dois anos anteriores. Ainda assim, 94% dos compradores disseram ter ordenado sua shortlist antes de conversar com os vendedores. Se uma empresa não aparece nas fontes e conteúdos consultados durante esse processo, corre o risco de ficar fora da formação da preferência antes da primeira conversa.
Uma possível consequência é o aumento do esforço, e potencialmente do custo, necessário para conquistar compradores. Quando as oportunidades chegam ao time comercial, o comprador frequentemente já tem uma preferência formada.
Framework: como auditar se o seu conteúdo tem perspectiva ou tem volume
Quatro perguntas para categorizar qualquer peça antes de produzir mais:
A IA consegue reescrever isso sem nenhuma informação adicional?
Copie o título e o resumo do artigo e peça para qualquer ferramenta de IA escrever um texto sobre aquele assunto. Se o resultado for muito parecido com o que sua empresa publicou, isso é um sinal de que o artigo pode estar apoiado mais no tema do que em informações próprias. Não é uma prova, mas é um bom alerta.
Tem alguém com experiência real por trás do argumento?
Perspectiva vem de pessoa. Se o artigo poderia ter sido publicado por qualquer empresa do seu setor sem que ninguém percebesse a diferença, falta autoria real. Autoria, aqui, significa quem viveu o que está sendo argumentado, não quem assinou o texto.
O argumento central contém evidências, experiências, decisões ou interpretações que vieram de dentro da empresa?
Dados de terceiros contextualizam. Experiência, interpretação e evidências próprias diferenciam. Um artigo que usa apenas pesquisas externas pode ser útil, mas precisa de uma leitura original para deixar de ser apenas uma agregação do que já está disponível.
O conteúdo resolve uma tensão específica que o seu cliente tem, ou informa sobre um assunto genérico?
"As tendências de marketing B2B em 2026" informa. "Por que nossos clientes do setor de logística pararam de depender de prospecção fria depois de 18 meses de conteúdo consistente" resolve uma tensão real com uma história real.
Quanto mais respostas positivas, maior a presença de perspectiva própria. Com zero ou uma resposta positiva, o conteúdo tende ao commodity; com duas, ainda há espaço para diferenciação; com três ou quatro, há sinais fortes de experiência e ponto de vista.

O que muda na produção
O erro mais comum depois de entender essa distinção é tentar resolver o problema na camada da escrita: contratar um redator melhor, usar um briefing mais detalhado, pedir um "tom mais autêntico". Mas essas mudanças trabalham só a superfície de um problema que está na estrutura.
A produção de conteúdo com perspectiva começa no acesso às pessoas que têm perspectiva: quem ganha e perde contratos, quem entrega o serviço, quem acompanha o cliente depois da venda.
O material diferenciador está nessas pessoas e a função do conteúdo é transformar esse material em algo publicável.
Isso tem implicações práticas para como uma empresa organiza a produção. Pautas precisam de entrada humana antes de virar rascunho: entrevistas internas, análise de casos reais, perguntas que só alguém de dentro pode responder. O tempo de produção aumenta para as peças que mais importam. Mas o resultado é conteúdo que oferece aos sistemas de busca e aos leitores mais sinais de experiência e diferenciação.
O guia do Google não cria um conjunto separado de regras, mas reforça um princípio antigo: conteúdo que acrescenta experiência, utilidade e ponto de vista tem mais condições de se destacar. O que mudou foi a velocidade com que o conteúdo genérico se multiplica e, com ela, o custo de publicar sem acrescentar nada.
Volume sem perspectiva é invisibilidade, acelerada por cada peça genérica publicada.
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